"Se não têm pão, que comam brioches" – Maria Antonieta, quando rainha de França e Navarra
Consumistas amam coisas. Pior que isso, cultuam coisas com tamanha devoção que acabam olhando pessoas como se coisas fossem... Muito pior: há pessoas que deixam de sentir e se tornam coisas também... Sorriem. Cumprimentam com delicadeza. Fazem poses quando observadas. Concordam com todos. São mestres em fazer parecer... Não bastasse terem se tornado coisas, querem ser o centro de todas as coisas... Na perda de si próprios, de sua essência, perderam o senso de prioridade. Seu valor principal passou a ser sua imagem, o controle sobre o que os outros vêem de si, e não sua dignidade existencial... São pessoas que não são mais. Apenas têm, ou têm que ter!... Seus sonhos são reféns de coisas e muito antes de lutarem por felicidade, atribuem a felicidade e suas escolhas ao poder econômico... Nem um passo além... São pessoas incapazes de um olhar de gratidão à natureza que as cerca... Incapazes de priorizarem uma criança, sua fome ou sua educação... Gente no limite da insensibilidade... Escolhem deliberadamente o supérfluo, dele vivem e a ele cultuam... O básico não lhes faz sentido... Uma das consequências danosas do consumismo é essa perda de valores e, portanto, da ordem mais óbvia das importâncias... Disso, nasce o progresso desordenado, nasce e se mantém a injustiça social... Somos pessoas, muito antes de reles consumidores, mas muitos não têm mais sonhos imateriais... Pensam poder comprar paz, liberdade ou direitos... Não compreendem o que não tem valor financeiro... Não sentem sequer compaixão. Seu olhar indiferente sobre a dor alheia e a miséria é sua prioridade... Trazendo essa relação narcísica doentia para a escala pública, os que perderam a noção de si mesmos buscam o controle da opinião pública sobre seus feitos, num vale-tudo de imagens que exclui todas as prioridades... Não importa quanto custe nem a quantos humilhe... Não importam urgências, fomes, relentos... Não importa que prejudiquem ao coletivo... E, principalmente, não importa o dinheiro de quem estão usando... Talvez, por isso, haja tantos narcisos ocupados em passar sobre as necessidades e sonhos das pessoas que os sustentam; como fazem ao meio ambiente, os tratores e caminhões dos que realmente representam... A prioridade é entrar para a história, deixar marcas, impor modelos... Ignorar as prioridades da maioria em nome de extravagâncias e desnecessidades mostra a face fria dos que dizem representar a todos, mas representam apenas papéis teatrais... Em tempos de desenvolvimento sustentável, democracia participativa e buscas de cidadania; insistem escolher em nome de outrem, determinar o que eleva a autoestima das pessoas... Caminhando à beira do abismo que os separa da realidade social, ignoram os limites de cansaço da sociedade para a indiferença e o desamor... Prioridades? O que são prioridades?...Prioritário, para algumas pessoas, é presentear a poucos com brioches caros e sonegar o básico à maioria que mal está conseguindo bancar o próprio pão... - Geraldo Varjabedian - [gvarjabedian@terra.com.br]: Escritor, Artista Plástico, Terapeuta Holístico. Apresenta o quadro SUSTENTABILIDADE no Jornal de Bertioga – Rádio Atlântica - AM 590.